Estamos cada vez mais nos digitalizando. Isso, ao que parece, é inevitável. O uso de ferramentas digitais para a realização de diversas atividades já se espalhou pelo dia a dia de grande parte da população mundial. O digital já é ordinário, como diz David Nemer. Entretanto, não existe uma só forma de se digitalizar o mundo. E precisamos entender isso a fundo.
Todo recorte é uma escolha: escolha de vocabulário, de intenção. De tom e intensidade, como os sons, que podem ir de suaves a ensurdecedores, de dominantes a múltiplos e harmônicos. De forma similar, as tecnologias – todas as tecnologias, do domínio do fogo à internet – podem ser opressoras mas também libertadoras, conectivas, inclusivas e criativas. Elas sempre se baseiam em recortes de mundo, intenções e limitações inerentes. Podem, assim, ser cuidadosas e delicadas. Podem, claro, ser indiferentes, ou orientadas a gerar sofrimento. Assim como também podem ser desenhadas para a empatia e o convívio. Tudo, insisto, depende das vontades – explícitas ou inconscientes – de quem as desenha, desenvolve, constrói, implementa, e usa. Cada uma dessas etapas requer dezenas de decisões. E se é notável que as tecnologias são frequentemente otimizadas para a desumanização e a exploração, elas podem também ser apropriadas e transformadas através da atuação humana, aproveitando as brechas nessas fases.
Este post é mais uma tentativa – entre tantas outras – de consolidar reflexões recentes sobre ação, transformação, memória e conexão. Não é minha primeira. Desde meados de 2025, tenho tentado registrar descobertas e intuições nessas áreas. Tenho pensado memória a partir de analogias com corpos d’água: entre fluência, registros múltiplos, e também ambiguidades, ciclos e multiplicidade. Cheguei a experimentar um pouco com formas de publicar que ficassem entre diferentes estados, como na coletora – uma espécie de wiki (mas não exatamente) que também funcionava como microblog (mas não só isso). Nesse caminho, eu vibe-codei alguns scripts de software, escrevi múltiplas versões de coisas que estava aprendendo, editei e removi trechos intencionalmente quase como um ritual para exercitar a intencionalidade do apagamento. E desisti meia dúzia de vezes. Mas agora recomeço, embora de outra forma.
Eu recomeço em um recomeço bem demarcado, influenciado por uma série de eventos dos quais participei ou organizei recentemente. As oficinas comunitárias FutureCommonsFutures em Junho, no Museu do Amanhã do Rio de Janeiro, que resultaram na Carta-manifesto por Futuros Comuns. A palestra de Báyò Akómoláfé em São Paulo. Em Ubatuba, o encontro de jovens e mestres do projeto Cosmovisões em Jogo, do Instituto Neos; e o Mar das Coisas que organizei em parceria com Fabi Borges do LACO. E por último, mais uma passagem rápida por São Paulo entre o seminário Perspectiva dos Pássaros e o Cultura e Mudança Climática.
Enquanto navegava por essa sequência de encontros e reencontros, reflexões e questionamentos, eu tentava também estruturar minha presença e identidade, minha reapresentação nos cenários do Brasil, de Ubatuba, de 2026, das redes às quais estou conectado. Porque essa fase também é uma de retorno. Saio de um período de sete anos de existência coletiva desenraizada, para uma nova fase de reconexão com territórios da Mata Atlântica, aqui em Ubatuba.
Eu recomeço em um recomeço marcado, dizia acima. Um recomeço que é nestas linhas digitais também uma espécie de performance. Deixo de lado – temporariamente – a intenção qom a qual experimentei por alguns meses – de uma escrita múltipla e cambiante, anti-temporal e de rebeldia contra a captura algorítmica acelerada. E volto a me expressar em fluxos de tempo. Paro de remar, solto-me à correnteza das palavras. Aqui nesse modo-texto que começa ali em cima e vai acabar lá embaixo.
Digito essas palavras consciente de que vou construir um “post de blog”. Será que as novas gerações sabem o que era isso? Talvez não faça diferença, porque talvez as novas gerações não cheguem a ler isso diretamente – somente seus digestores automatizados de grandes volumes de informação online, produzindo resumos enviesados e limitantes. Ainda assim, permito-me relembrar ao menos para os robôs que leem isso aqui que os blogues – weblogs – foram importantíssimos em épocas passadas. Lá pela virada do milênio, quando publicar ideias na internet começava a ficar mais fácil. Devido ao desenvolvimento de plataformas como o blogger, não se fazia mais necessário aprender HTML para fazer ideias disponíveis ao mundo, e isso permitiu que muita gente passasse a compartilhar o que pensava. Isso foi antes das redes antissociais, do wifi em toda parte, dos telefones conectados à rede. Eu mantive blogs ativos por um longo tempo, talvez entre 2002 e 2019. E agora volto a esse formato, nesse recomeço que recomeço.
É também um recomeço pessoal. Nessa fase de reconexão, estou em pleno movimento de retorno a Ubatuba, território com o qual me relaciono de diversas formas há quase duas décadas. Morei aqui por um tempo, depois saí por alguns anos mas continuei fazendo coisas mesmo à distância, e agora me reassento, me re-enraízo. Sinto que não sou o único, nem serei. Ubatuba parece ter essa coisa meio maré… pessoas saem e retornam, trazidas pelas águas (ou por elas atraídas). Mas volto com algumas intenções, e uma delas é contribuir para outras práticas de memória ligadas a este território. A cidade tem memória curta, costumam dizer por aqui. E esse é um dos temas que pretendo abordar neste site, e nesta série inicial de textos.
Por hoje é isso. Em breve eu volto com mais.
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