Em Julho de 2026, Ubatuba sediou o Encontro Cosmovisões. Foi uma imersão ao longo de quatro dias, em quatro locais distintos:
- o Centro Cultural Vila Caiçara, na região central da cidade;
- a associação Gaiato, no bairro Ipiranguinha;
- a aldeia Yaka Porã, no sertão da Itamambuca; e
- a sede do Instituto Neos, na praia do Estaleiro.
O evento fazia parte do projeto Cosmovisões em Jogo, que está realizando ao longo de 2026 uma série de atividades culturais e educativas com foco especial no intercâmbio entre comunidades, regiões, gerações e visões de mundo. Além do encontro realizado em julho, o projeto – contemplado no edital da Política Nacional Cultura Viva 48/2024 – também está oferecendo uma série de oficinas e dois “sábados culturais”, sempre com acesso livre e gratuito.

A agência Ubatuba Ciências Culturas faz parte do Comitê Gestor do projeto. Nessa função, tive a satisfação de contribuir a curadoria e desenho do encontro, além de outras atividades que já estão em marcha como a oficina #PazParaQuem iniciada em setembro.
Os quatro dias de atividades em julho foram intensos, profundos. Minha sensação foi de um encontro real. Ao contrário de tantos eventos efêmeros nos quais algumas pessoas simplesmente repetem suas apresentações de sempre, enquanto outras vivenciam o momento e logo o esquecem, me parece que ali tivemos algo diferente. Nos afetamos – em outras palavras, construímos afetos. Eu saí muito diferente de quando entrei, e ouvi relatos parecidos de outras pessoas que participaram.




Minha sensação foi de um real encontro. Ao contrário de tantos eventos por aí nos quais algumas pessoas simplesmente repetem suas apresentações de sempre, enquanto outras vivenciam o momento e logo o esquecem, me parece que ali vivemos algo diferente. Conversamos muito, comemos comida feita com amor por gente da terra, nos escutamos, cantamos e dançamos. Nos afetamos: construímos afetos. Saí muito diferente de quando entrei, e ouvi relatos parecidos de outras pessoas que participaram.
A bem da verdade, eu havia chegado com um plano. Queria realizar intervenções estruturadas em cada um dos dias. Coletando relatos, organizando elementos para contar uma história que eu já tinha concebido de antemão e recrutando pessoas para ajudarem com ideias que eu já queria resolver. Mas simplesmente estar naqueles lugares – vivenciando tantos mundos em um só e sentindo tanta abertura para construir pontes – acabou por mudar minha atitude. Meu espírito esteve mais interessado em reconfigurar intenções, reavaliar o meu papel, aprender com as pessoas, silenciar minhas ideias preconcebidas e tentar entender de que forma posso ser útil nos tempos que vêm. Eu também estava informalmente atuando como tradutor e mediador para uma colega estrangeira que visitava o Brasil pela primeira vez, e isso me deixou em uma posição ainda mais flexível – e imprevisível.
Estou em um momento de retorno a Ubatuba, após um longo período fora do país. Na verdade nunca me desliguei completamente do contexto daqui, mas passei sete anos bem longe. E nos próximos meses estou efetivamente movendo minha base de volta para esse lugar tão especial entre a mata e o mar, entre história passada, presentes múltiplos, e futuros promissores. Ainda estou aprendendo qual vai ser meu papel aqui. Brinco com nomes, como sempre fiz. Doutor F, diretor da agência Ubatuba Ciências Culturas. São nomes, carregam conceitos. Carregam chistes. E possibilidades.
Desde que vim morar em Ubatuba em 2008, contei muitas vezes histórias parecidas a essas. Ou diferentes versões das mesmas histórias. Dessa vez, entretanto, estou mais consciente da necessidade de erguer bases sólidas. Este site – o Acervo Vivo Ubatuba – é uma resposta à condição que muito tenho repetido atualmente: Ubatuba tem questões graves com sua própria memória. É uma cidade sem museu nem universidade.
O Acervo Vivo é uma infraestrutura digital aberta para ajudar a abordar essas questões. E o Encontro Cosmovisões foi a primeira vez em que falei em público sobre isso. Não foi uma apresentação propriamente dita – inicialmente meus planos eram outros, como comentei. Mas acho que joguei a semente, e agora quero tratar de cuidar dela.
Em tempo: vou organizar a documentação do Encontro e provavelmente criar uma coleção digital aqui no site. Ou criar uma coleção para o projeto Cosmovisões em Jogo como um todo. Deixemos o tempo decidir.
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